ARTIGO: A Semana de Arte Moderna de 22: estado de poesia e de arte

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A SAM, a velha dama, com dignidade, faz 100 anos. O Brasil, “politicamente independente”, tornar-se-á, ainda sem maiores alardes, bicentenário no dia 07 de setembro de 2022. Nos reportaremos, agora, ao primeiro acontecimento histórico, embora seja o segundo – e tão somente – que tudo provoca e, vira, mexe, dita.

Desde os fins do século XIX que o galicismo berrava nos desertos da América. Tudo que o café [São Paulo] fosse capaz de proporcionar, certamente, viria da França ou por via francesa: doutrinas científicas, filosóficas, literárias. Era chic. Mas não só isso.

Tudo evoluiu tanto que adentramos o século XX instalados em nossa Belle Époque: perfumes e arys de Paris, o petit Trianon, as ruas do Rio de Janeiro… “os cafés, o music-hall, o teatro de boulevard e os romances de pacotilha que a França produzia expressamente para esse público de ultramar”, arremata Leyla Perrone-Moisés, em seu Vira, Mexe Nacionalismo: paradoxos do nacionalismo literário (Companhia das Letras, 2007: 67). Très chic.

Havia quem achasse ridículo e demonstrasse vergonha por tais “macaquices” (João do Rio, Lima Barreto…). O servilismo nunca será chique. Recepcionar os modelos estrangeiros, sim, mas acomodando-os aos nossos objetivos, nosso temperamento e a nossa tradição nacional, protestaria José Veríssimo (1857-1916). “Antropofagicamente”, nos lembrará mais tarde (1928), Oswald de Andrade (1890-1954), numa tentativa de reafirmar a necessidade de se repensar a nossa dependência cultural.

A proposta de Oswald era a de “engolir” as técnicas e as influências de outros países e, assim, fomentar o desenvolvimento de uma nova estética artística brasileira. Logo, surgiria um novo modo de “fazer arte” que contaria, a partir de então, com uma forte identidade nacional e, assim, se desvincularia da influência direta da cultura europeia. “Se ele ‘reafirma’ em 28, é porque 22 foi pouco. Muito carecia ainda de ser feito: revistas, manifestos, obras”, me corta a filósofa e socióloga Terta Soares, uma amiga entendida em tudo.

 

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A Semana de Arte Moderna foi pensada muito tarde (em Portugal, por exemplo, o Modernismo se inicia em 1915, com a revista Orpheu, de Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro), se considerarmos que, em 1909, as ideias encetadas pelo vanguardismo europeu já haviam desaguado por aqui, quando, em 5 de junho de 1909, o caicoense Manoel Dantas (1867-1924) traduziu e publicou no jornal A República, de Natal, Rio Grande do Norte, o Manifesto do Futurismo, de Marinetti[1]. Acreditamos que o “futuro” [talvez na mesma concepção com a qual olhara Oswald para Mário de Andrade chamando-o de “meu poeta futurista”] era objeto das preocupações do juiz de direito e jornalista Manoel Dantas [também professor e político. Chegou, inclusive, a ser intendente – por um mês – de Natal], pois há registro que proferira em 21 de março, antes, portanto, de ele publicar e traduzir o Manifesto, no salão nobre do palácio do Governo do Estado, a palestra “Natal daqui a 50 Anos”. Na visão futurista de Manoel Dantas, a capital da província tinha tudo para se tornar a “metrópole do Oriente da América”. Vejamos:

“Natal deverá possuir uma estação monumental na Praça Augusto Severo, que será cortada pela Estrada de Ferro Transcontinental, com seus trens partindo de Londres, passando pelo Canal da Mancha, percorrendo a Europa, o norte da Ásia, atravessando o Estreito de Bering, cortando a América do Norte, galgando em cima dos Andes, descendo pelos campos de Mato Grosso e Goiás, seguindo o Vale do São Francisco, pairando sobre a Cachoeira de Paulo Afonso e terminando essa estrada em Natal. O ponto de atração dessa gente cosmopolita seriam os morros e as dunas alvas”[2].

Antes de 22, pelo menos outro acontecimento poderia ter marcado a chegada do movimento modernista entre nós: a exposição da pintora Anita Malfatti (1889-1964), em São Paulo, em dezembro de 1917.

Recém-chegada da Alemanha e tendo também estudado nos Estados Unidos da América, as obras de Anita Malfatti apresentavam traços do Expressionismo e do Cubismo, que modificavam a antiga forma de se pintar retrato e outros elementos da natureza. Isso não era conhecido por aqui. “Monteiro Lobato deu escândalo quando viu os quadros. Chamou a Anita de noiada”, relembra Tertinha o que ouvira de um professor de arte, de famosa escola da cidade. “Um escândalo!”

“A propósito da exposição de Malfatti ou Paranoia ou Mistificação?” foi a crítica publicada no jornal Estado de São Paulo, em 20.12.1917, pelo Monteiro Lobato, “medíocre paisagista acadêmico e avesso a todas as correntes estéticas do século XX”, sentencia Alfredo Bosi em seu célebre História Concisa da Literatura Brasileira. O artigo quase destruiu a carreira de Anita Malfatti, que ficou muito abalada. Obras que haviam sido adquiridas, foram devolvidas pelos compradores. Ela passou mais de um ano sem pintar. É fato que o acontecimento funesto acabou aproximando-a das figuras que engendravam o movimento modernista no Brasil: Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade e Pedro Alexandrino Borges.

Entre os 13 anos que atrasam a fixação de um marco para o início do Modernismo no Brasil, é bom que se frise as dificuldades naturalmente trazidas pela guerra e uma pandemia. No caso, refiro-me à Primeira Guerra Mundial, entre os anos de 1914 e 1918, e a gripe espanhola (vírus influenza, H1N1), que vai nos impactar nos anos de 1918 e 1919. Imagine que a população brasileira, em 1918, girava em torno de 30 milhões de pessoas. No primeiro ano, cerca de 65 por cento dos brasileiros contraíram a gripe. Até 1919, a gripe matou umas 35 mil pessoas, inclusive o presidente da República, Rodrigues Alves, que estava retornando para um novo mandato, após ter sido presidente do Brasil no período de 1902 a 1906. Tudo foi muito parecido com o que acontece agora nestes tempos da covid-19. Sem tirar nem por. Inclusive, com muitas fake News (a causa mortis do presidente Rodrigues Alves, por exemplo, é questionada) e uso de medicamentos sem comprovação científica. “Dizem até que a caipirinha nasceu nesse tempo, né, quando o brasileiro pensava em se curar tomando muita cachaça com mel e limão. O limão ficou muito caro. E sumiu dos mercados”, me atravessa Kakinha, outra amiga aqui de casa, que havia dado uma espiada ligeira na Wikipedia.

 

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A Semana de Arte Moderna foi pensada para acontecer em São Paulo, no período de 11 a 17 de fevereiro de 1922. Seria um festival eclético, híbrido, isto é, deveria ser mostrado tudo que fosse representativo do espírito moderno-futurista: o extravagante, o desvario, o bárbaro. Logo, uma grande exposição de pinturas, gravuras, desenhos, esculturas e maquetes de arquitetura – cerca de 100 peças – foi montada. Eram trabalhos de Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Goeldi, Zina Aita, Martins Ribeiro, Yan de Almeida Prado, Vicente do Rego Monteiro, Victor Brecheret e outros. Durante toda a semana, os trabalhos estiveram à mostra, para apreciação, no saguão do Teatro Municipal. Nos dias 13, 15 e 17 aconteceram as sessões literomusicais, divididas em duas partes, entremeada por um intervalo, a fim de que as pessoas circulassem pelo saguão e apreciassem as obras. Inclusive, Mário de Andrade pronunciou breve palestra, na escadaria interna do teatro, sobre a exposição de artes plásticas ali apresentada. Então, entre vaias, pateadas, tomates e batatas, tivemos, na primeira noite, a conferência de Graça Aranha, “A emoção estética na arte moderna”, ilustrada com música de Ernani Braga. As poesias seriam declamadas por Guilherme de Almeida e Ronald de Carvalho, seguido de um concerto de Vila Lobos. A segunda parte do espetáculo trazia uma conferência de Ronald de Carvalho sobre “A pintura e a escultura moderna no Brasil” e depois três solos de piano de Ernani Braga e três danças africanas de Vila Lobos.

Na segunda noite, a conferência proferida por Menotti del Picchia aconteceu sem problemas. Mas o sarau foi perturbado na hora das “ilustrações”: Mário de Andrade foi vaiado ao recitar seu poema “Ode ao burguês” [muita ingenuidade ou atrevimento de Mário, que escolheu logo um poema que criticava a burguesia presente na plateia. E patrocinadora, pois sim: o escol financeiro e mundano da sociedade paulistana, capitaneados por Paulo Prado]. O mesmo aconteceu com Ronald de Carvalho, quando declamou o poema “Os sapos”, de Manuel Bandeira, que permanecera no Rio de Janeiro, pois estava em crise provocada pela tuberculose (a vida inteira que poderia ter sido e não foi. Mesmo assim, morreu aos 82 anos). O poema de Bandeira ridicularizava o Parnasianismo e foi recitado sob apupos, assobios, a gritaria “foi não foi” da maioria do público. Oswald de Andrade também recebeu sonora vaia quando começou a ler trechos do seu romance Os condenados. O Sérgio Milliet falou sob o acompanhamento de relinchos e miados. Toda aquele frescurite francesa tão comuns nas apresentações do Teatro Municipal deram lugar a uma turba louca e cruel.

Na terceira noite, Vila Lobos, por estar com um calo arruinado, se apresentou de casaca e chinelo num pé e sapato no outro. Foi vaiadíssimo, pois o público julgou que ele assim se portava para ser “vanguardista”. Registre-se que foi aplaudido quando começou a apresentar os seus números musicais. Os números de bailado por Yvonne Daumerie e o concerto de Guiomar Novais trouxeram, finalmente, calma à sala.

Tarsila do Amaral? Não, não participou da SAM [a obra “O Abaporu” é de 1928]. De 1920 a 22, Tarsila, sempre muita estudiosa, estava em Paris, cursando a Academia Julian e na Oficina de Émile Renard (aí, já estava sabendo tudo sobre futurismo, dadaísmo, cubismo. Depois, com tanta cultura e finesse, vai fazer parte do Clube dos Cinco, o top five do modernismo brasileiro: ela, Anita Malfatti, Menotti del Picchia, Oswald e Mário de Andrade).

Mário de Andrade, vinte anos depois, faz um balanço sobre a Semana de Arte Moderna e o que se desdobrou a partir dela (obras, revistas, manifestos… principalmente, fora do eixo Rio-São Paulo) e elencou os três princípios fundamentais do movimento modernista brasileiro: o direito permanente à pesquisa estética; a atualização da inteligência artística brasileira; e a estabilização de uma consciência criadora nacional.

Lat But Not Least

Se você está pensando que o Centenário da Semana de Arte Moderna vai passar em branco em Mossoró é porque você não conhece o pessoal do Gelinter e do FALA, Barroco, da UERN/Faculdade de Letras e Artes (leia-se doutora Leila Tabosa e grupo). Em abril, de 01 a 08, Mossoró verá, Sofará! Vá ao sítio: https://semarte2022.wixsite.com/evento/sobre

 

 

Por Aluísio Barros de Oliveira, poeta e mestre em literatura comparada.

aluisiobarros7@gmail.com

[1] O Manifesto do Futurismo, de Filippo Tommaso Marinetti (1876 – 1944), foi publicado, primeiramente, em 20 de fevereiro de 1909, no jornal Le Figaro, em Paris, França. No Brasil, há registro além do publicado em A República, de artigo escrito pelo professor e crítico literário Manuel de Sousa Pinto, em 06 de abril, no jornal Correio da Manhã, do Rio de janeiro. E de outra publicação e tradução no Jornal de Notícia, da Bahia, em 30 de dezembro.

 

[2] Disponível em: http://www.historiaegenealogia.com/2009/11/manoel-gomes-de-medeiros-dantas.html acesso em 08 fev. 2022.

 

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