Um dos locais que mais despertam a atenção dos visitantes do Cemitério São Sebastião, no Centro de Mossoró, durante o Dia de Finados, é o túmulo do cangaceiro José Leite de Santana, conhecido como Jararaca. Quase um século depois de sua morte, a sepultura continua recebendo flores, velas, orações e pedidos de pessoas que acreditam que ele pode interceder por graças e milagres.
Jararaca integrou o bando de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, e participou da tentativa de invasão de Mossoró, em 13 de junho de 1927. O ataque foi repelido pela resistência organizada pelo então prefeito Rodolfo Fernandes, com participação de policiais e moradores da cidade.
Após o confronto, Jararaca ficou ferido e conseguiu escapar inicialmente, mas acabou localizado e preso no dia seguinte. Ele foi levado pelas autoridades e morreu em 19 de junho de 1927, aos 26 anos, em circunstâncias que até hoje alimentam controvérsias e diferentes versões históricas.
Uma das narrativas mais conhecidas afirma que o cangaceiro foi levado ao Cemitério São Sebastião, onde teria sido executado e enterrado ainda com vida. Essa versão faz parte da memória popular sobre sua morte, embora os detalhes do episódio sejam objeto de discussão entre pesquisadores.
De cangaceiro a santo popular
O que torna a história de Jararaca ainda mais curiosa é a transformação de sua imagem após a morte. Temido durante a vida e associado à violência do cangaço, ele passou a ser tratado por parte da população como uma espécie de santo popular.
Pessoas que visitam sua sepultura relatam que fazem pedidos relacionados à saúde, moradia, emprego, proteção e problemas familiares. Há também quem retorne ao local para agradecer por graças que acredita ter alcançado por sua intercessão.
A devoção é marcada por oferendas de flores, velas, fitas e outros objetos deixados sobre o túmulo. Os relatos de promessas e supostos milagres são transmitidos entre gerações e ajudam a manter viva a tradição.
Uma reportagem publicada pelo UOL em novembro de 2021 registrou relatos de devotos que frequentavam a sepultura havia vários anos. Na ocasião, o fiscal do cemitério afirmou que o túmulo de Jararaca era o mais visitado do local e recebia pessoas de estados como São Paulo, Alagoas e Ceará.
Uma história que atravessa gerações
A devoção a Jararaca não é recente. Pesquisas acadêmicas identificam registros de visitas e pagamentos de promessas em seu túmulo desde pelo menos a década de 1970. Um estudo baseado em jornais da época aponta que, em 1976, a sepultura já figurava entre as mais procuradas pelos visitantes no Dia de Finados.
O fenômeno também foi estudado pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), em uma dissertação que investigou como um integrante do bando de Lampião passou a ser considerado santo por parte dos fiéis mossoroenses. O trabalho analisa a relação entre a morte violenta, a memória popular e a construção da devoção religiosa.
Assim, todos os anos, especialmente em 2 de novembro, o túmulo de Jararaca se torna um dos pontos de maior curiosidade e visitação do Cemitério São Sebastião. Entre a história do cangaço, as narrativas sobre sua morte e a fé popular, a sepultura preserva uma das manifestações mais singulares da religiosidade popular de Mossoró.
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