Opinião com Paulo Linhares

O homem de Kiev

Nestes tempos assombrados por uma terrível pandemia e, agora, por uma séria ameaça à paz mundial ensejada pelo conflito russo-ucraniano, veio à mente um dos filmes mais instigantes que a febril adolescência, na sua santa ânsia por coisas novas, poderia suportar:  com título original em inglês, “The Fixer” (1968), que viria a ser a obra magna do grande cineasta John Frankenheim e cujo título em português era “O Homem de Kiev”.

Numa sinopse ligeira encontradiça no Tio Google, trata-se de drama ocorrido na Rússia czarista, nos primeiros anos do século XX, época dos pogroms, as perseguições aos judeus. Yakov Bok, judeu humilde, porém instruído, deixa seu vilarejo após ser abandonado pela esposa. Em Kiev, esconde sua origem e torna-se empregado de Lebedev, comerciante alcoólatra e antissemita.

Quando um jovem é assassinado, a identidade de Yakov é descoberta e ele é preso injustamente. Pressionado, ele nada confessa e procura adaptar-se à prisão, na esperança de que algum fato novo o inocente. Porém é aprisionado e torturado. Um advogado fará o possível e o impossível para libertá-lo. Incrível que ele passou anos exibido numa cela ao ar livre, como animal de um zoológico. Importante é que Yakov, na impossibilidade de provar sua inocência, busca adaptar-se à prisão como se fosse ela causa suficiente, reduzindo-se à condição de bicho. Esse drama impactou o cinéfilo adolescente, enquanto outros tantos vibravam com os bangue-bangue espaguetes do Sérgio Leone.

Agora, que o mundo soçobra ante a ameaça de um conflito que guarda enorme potencial de alastramento, mantém-se a imagem daquele prisioneiro barbudo e desumanizado a arrastar correntes numa jaula de Kiev, hoje capital de um Estado parido da desagregação da antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

Aproveitado a dissolução do Império Soviético, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), opôs forte ofensiva de trazer para si vários dos países que compunham a aliança militar denominada “Pacto de Varsóvia: Hungria, Polônia, Theco-Eslováquia,  Estônia, Letônia e Lituânia, vestiram a farda da OTAN. O “segmento Europa”, da URRS, “fechou” com o Ocidente. Nessa conta, o última das  peças do dominó a cair seria justo a Ucrânia. Daí que os estrategistas da OTAN se concentraram numa ação política cujo objetivo seria “matricular” a Ucrânia, a partir da sensibilização do comediante-presidente,Volodymyr Olexandrovytch Zelensky, presidente eleito daquele país e empossado em 2019, para uma postura política pan-europeia e contra Moscou.

Enfim, fizeram com que Zelenski, um conservador e  típico “outsider” político, “engolisse corda” e imaginasse que a entrada da Ucrânia na OTAN seria algo como uma vilegiatura juvenil à Disneylândia. Desgraçado (para seus compatriotas)  engano: o araponga-mor da antiga KGB e do FSB, Vladimir Vladimirovitch Putin, que é o czar da política russa há mais de duas décadas, não cometeria os erros de seus antecessores Mikhail Sergeevich Gorbatchov, sofisticado político de feição social-democrata, Boris Nicoláievitch Iéltsin, primeiro presidente da Rússia após o desmantelamento do império soviético cuja obra de (des) governo foi instalar o caos político, econômico e social no país, sempre às custas de homéricos porres com essa “aguinha” cujo sentido etimológico é vodca, em português, um forte destilado da batata cuja gradação alcoólica pode atingir exagerados 60 graus. Foi “obra” desse beberrão inveterado (falecido em 2007) a passagem para a OTAN de mais de uma dezena de países do antigo Pacto de Varsóvia.

Acuado, o “czar” Putin antecipou-se aos fatos e baixou as garras do poderoso exército russo para deter a cavilosa adesão da última república ex-soviética à OTAN: invadiu a Ucrânia. Perfeita manobra político-militar, posto que claramente uma agressão à Carta da ONU, de 1948. O modelo famoso da “crise dos mísseis soviéticos em Cuba”, do anos 1960, foi seguido por Putin,  numa reedição.

Uma achega indispensável: a posição da diplomacia brasileira. Nas pregadas do Barão do Rio Branco, a diplomacia brasileira, no Conselho de Segurança e na Assembleia Extraordinária da ONU, em sessões recentemente realizadas, a um só tempo: condenou o assédio “político-militar” da OTAN e o delito contra o Direito Internacional contemporâneo plasmado na invasão russa ao Estado independente da Ucrânia. A despeito das bobagens opostas de Bolsonaro e do vice general Mourão, salvou o  Brasil o (competentíssimo) embaixador Ronaldo Costa Filho, esse sim que nos representa nesse conflito. É a palavra inequívoca do Brasil nos fóruns internacionais. Viva a diplomacia brasileira. Viva Rio Branco.

 

* PAULO AFONSO LINHARES é doutor em Direito, advogado, professor universitário aposentado e diretor-presidente da Rádio Difusora de Mossoró.

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