ARTIGO: O suicídio de Vargas e a fórmula Café Filho

Por Jessé Rebouças

 

Na primeira sexta-feira de agosto (05/08/2022), o prazo para a realização de convenções pelos partidos políticos e pelas federações destinadas a deliberar sobre coligações e a escolher candidatas e candidatos nas eleições gerais chegou a termo. Com ele, a sopa de letrinha das siglas partidárias tornou-se verdadeiro alfabeto cirílico: incompreensível à população não iniciada na gramática do poder.

Com efeito, nada aparenta ser mais disfuncional do que a formação dos palanques políticos no interior do Rio Grande do Norte. Hoje, cores historicamente antagônicas foram diluídas na grande tela das conformações políticas.

A Realpolitik[1] potiguar produziu, por exemplo, que o PSDB, na convenção da federação com o Cidadania que aconteceu em 21/07, adotasse uma posição de neutralidade em relação às chapas dos governadoráveis potiguares, enquanto o candidato ao Senado pelo PL, Rogério Marinho, manteve-se “recumbente nos campos” de “colheitas douradas”, com o tempo de tv, rádio e apoios de quase todos os quadros psdbistas.

Na verdade, a ‘indefectível’ neutralidade dos tucanos norte-rio-grandenses é uma ode ao pragmatismo, um salvo conduto à estruturação de palanques locais libertos do sectarismo ideológico. Em simples ditado popular: “Um olho no peixe e outro no gato” das preferências nacionais que possuem pontos de interseção no Estado. A “Chapa Farinho” (Fátima + Rogério Marinho) é o resultado dessa seletividade (pragmática) de forças políticas (antagônicas).

O RN sempre foi um prodigioso chão para esse tipo de “arrumação” guinada por conjunturas políticas que transcendem os seus lindes.

Nas (igualmente) gerais de 1954, um start sem precedente provocou grande rebu político com consequências eleitorais: o suicídio, na madrugada de 23 para 24 de agosto, do gaúcho Getúlio Vargas. Esse ato de transcendência histórica desmontou o cerco de forças de oposição aglutinadas em torno de Vargas. Café Filho, seu vice – único potiguar da história a ocupar a presidência da república –, assumiu o posto presidencial.

Em terras potiguares, nesse ano de 1954, esperava-se que os dois grandes partidos do Estado, respectivamente UDN e PSD, partissem para a disputa esquina a esquina, voto a voto, debate a debate, a preferência do voto do povo potiguar. Porém, essa nova condição de Café Filho incentivou-o buscar uma (improvável) solução pacificadora: unificar os dois polos políticos em torno das duas vagas (em disputa) em oferta ao senado da república.

Um aparte para um esclarecimento e duas curiosidades:

i) À época, Sylvio Pedroza[2] era governador do RN – entre 46 e 50, foi prefeito da capital –, assumindo a cadeira no Palácio do Potengi após o inesperado e não menos trágico acidente aéreo de Jerônimo Dix-Sept Rosado Maia em julho de 1951, no Estado de Aracajú. O Governador se manteve relativamente neutro no processo eleitoral de então.

ii) O parêntese para duas curiosidades: no mesmo quadriênio, dois vices do mesmo Estado (Sylvio e Café Filho) assumem a titularidade do executivo em esferas federativas diferentes unidos pelas tragédias que os antecedem, respectivamente um acidente aéreo e um suicídio (político); outro fato igualmente interessante é que, pela primeira e única vez na história do RN, um governador potiguar fora recebido por um presidente potiguar ocupando assento no Palácio do Catete, no RJ, em 1954.

Voltando!

A União Democrática Nacional (UDN), por seus líderes Dinarte Mariz, José Augusto e Aluízio Alves, aceitaram, de pronto, a “fórmula Café Filho”; n’outra ponta, o PSD, tocado por Georgino Avelino, topou a estratégia. Dinarte Mariz e Georgino Avelino foram escolhidos nas convenções partidárias presididas por José Augusto e Theodorico Bezerra, respectivamente. O “acordo dos senadores” nascia forte e corado. Os slogans “Cabugi no centro da terra e Georgino no coração do povo” e “Dê o seu voto, a quem não compra vota” plasmaram as eleições para o senado.

Algumas alas da UDN, para não fugir à regra da política, dissidiram do “acórdão” para fazer a dobradinha José Varela – candidato ao senado pelo Partido Democrático Cristão (PDC) – e Dinarte Mariz, minando a candidatura de Georgino Avelino. Isso porque o PDC e a UDN formaram uma coligação para aquelas eleições gerais de 1954, denominada de Aliança Democrática Cristã, abarcando os cargos de deputado estadual e federal. De fora dessa aliança, em decorrência da “fórmula Café Filho”, ficou a senatoria. Com a investida de parte da ala udenista, o PSD, obviamente, esperneou e denunciou a sabotagem do acordo.

Ao fim e ao cabo, a “fórmula Café Filho” produziu o resultado esperado: Dinarte Mariz obteve 103.711 votos e Georgino Avelino 81.958. O “acordo dos senadores”, sob orientação do pragmatismo de outrora, entregou aos apostadores o que prometera.

Hoje, as condições de temperatura pressão estão diferentes, mas as velhas fórmulas práticas da política fizeram, fazem e farão parte, como ferramenta na algibeira, dos grupos em disputa. Ainda sobre isso, é bíblico: “o que foi feito se fará novamente; não há nada novo debaixo do sol”.

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[1] Esse termo fora cunhado na época da unificação da Alemanha no século XIX, a fim de qualificar a diplomacia de “sangue e ferro” do “Chanceler de Ferro”, o prussiano Otto von Bismarck. Modernamente, usa-se a expressão para designar um pragmatismo político desprendido de qualquer idealismo.

[2] Era sobrinho-neto de Pedro Velho e Albuquerque Maranhão, chefe do primeiro clã político do Estado pós-Proclamação da República.

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