Editor Carlos Fialho anuncia o fim da “Jovens Escribas” após 17 anos de atuação

Através de uma postagem-desabafo, o escritor, poeta e editor Carlos Fialho anunciou nesta sexta-feira (05) o fim da sua editora Jovens Escribas. “O que vinha segurando as pontas era o programa governamental conhecido como cheque-livros, mas com a descontinuidade do mesmo em 2020, em função da pandemia, nos vimos em uma situação de completa falta de perspectiva”, comenta na sua postagem.

Projeto ousado, a Jovem Escribas já havia mudado o seu formato de publicação em 2017, tentando capitalizar o selo editorial, deixando de publicar obras com financiamento próprio e passando a editar obras somente por encomenda. Ao que parece não deu certo.

Fazem parte do catálogo da editora, autores como Nei Leandro de Castro, Diva Lima, Clotilde Tavares, Pablo Capistrano e o próprio Fialho. O desabafo de Fialho lembra queixa constante de um dos maiores, senão o maior editor do Rio Grande do Norte, falecido em 2005, o professor Vingt-un Rosado, idealizador da Coleção Mossoroense, que chegava a tomar dinheiro emprestado para publicar livros: “Viver de cultura neste país é coisa de maluco!” Dizia com frequência.

 

Confira nota do editor na íntegra:  

Pois bem, decidi que vou encerrar as atividades em função da insustentabilidade dela como negócio.

Desde o final de 2016, ela vem convivendo com dificuldades financeiras e os últimos 2 anos foram especialmente atribulados. O que vinha segurando as pontas era o programa governamental conhecido como cheque-livros, mas com a descontinuidade do mesmo em 2020, em função da pandemia, nos vimos em uma situação de completa falta de perspectiva.

Em 2021, o programa poderia ter retornado, uma vez que tivemos uma edição da Feira de Livros e Quadrinhos de Natal (FLIQ), mas por razões que desconheço, isso não aconteceu.

É verdade que a Lei Aldir Blanc deu um enorme aporte para o setor de livro e leitura no início deste ano, mas ainda assim, não foi possível chegar ao fim do ano com fôlego… e ânimo.

É preciso escrever o fim dessa história antes que ela siga caminhos ainda mais tortuosos. Eu sabia que não seria fácil, que precisaria ter muitas persistência se quisesse fazer prosperar uma editora de livros em uma cidade como Natal, em um estado como o RN, ainda mais na literatura onde só têm valor escritores que se sujeitem a mudar-se pra São Paulo. No entanto, é preciso ter discernimento para saber quando a persistência se transforma em teimosia. E a verdade é que perdi esse bonde há algum tempo.

Durante muito tempo, agarrei-me a cada débil sinal de que as coisas poderiam dar certo, mas neste início de novembro, cheguei à dura conclusão de que já não há mais possibilidade de seguir. As dívidas acumuladas já ultrapassam qualquer possibilidade de serem pagas, uma vez que nem dos compromissos mensais, corriqueiros e obrigatórios, tem sido possível dar conta. Portanto, se não pisar no freio agora e dizer pra mim mesmo, assim como para vocês, que sempre têm acompanhado e apoiado esta trajetória, que está na hora de parar, as coisas só tendem a ficar piores.

Gradativamente, as consequências da derrocada foram se acumulando em meus ombros, tornando-se um fardo pesado demais para seguir carregando. O que era uma incoerência, uma vez que foi justamente o oposto disso que me atraiu para o mundo da leitura no início da vida. O que me atraiu na escrita foi a leveza e a fluidez. A leveza que eu percebi em texto geniais de humor. A fluidez de histórias que consumia sem que sentisse o tempo passar. Era a crônica brasileira em sua plenitude, escrita por um dos seus maiores gênios.

Foram os livros do L. F. Veríssimo que me despertaram o desejo de tentar escrever textos que provocassem nas pessoas sensações tão boas quanto aquelas, revelando que a leitura pode ser tão divertida quanto qualquer outra atividade de lazer. Quando, em dado momento, decidi largar a carreira de publicitário para me dedicar com exclusividade à editora, esperava atingir um destino de prosperidade e tirar dessa atividade meu sustento, com a diferença de que o caminho seria muito mais interessante. Curti bastante. Cada lançamento de livro, não só os meus, mas das minhas amigas e dos meus amigos que publicaram conosco, foram de incontida alegria. Tive o privilégio de me tornar amigo de pessoas que admirava e de viver experiências inesquecíveis em inúmeras viagens, eventos, conversas.

A AÇÃO LEITURA proporcionou alguns dos momentos de maior realização para mim e o Bazar Independente foi uma iniciativa muito prazerosa de crença na economia criativa. Mas no longo prazo, não tem rolado. E o que era pra ser sinônimo de leveza, converteu-se em toneladas de problemas, incertezas e um sentimento de derrota que transborda, escorre e se espalha por cada aspecto de minha vida. Tornei-me um peso para os nossos fornecedores, parceiros e autores que não têm recebido o que lhes é devido, bem como para minha família a quem preciso sempre estar renovando as explicações de que não tem dado certo. Não recomendo a sensação de ser um peso para as pessoas que confiaram em você. Geralmente vem acompanhada de pensamentos acusatórios relativos a escolhas mal feitas, trajetórias não seguidas, caminhos não trilhados, neste imenso jardim de veredas que se se bifurcam que é a vida.

Semana que vem, quando tiver algo mais concreto sobre esse desfecho e o possível projeto de financiamento coletivo, dou um alô por aqui.

Bom fim de semana, pessoal. Fui! Fuialho!