Poesia de luto: morre em Manaus, aos 95 anos, o poeta Thiago de Mello

Faleceu hoje, na capital amazonense, Thiago de Mello, um dos maiores poetas brasileiros do último século, traduzido em mais de trinta países e autor de obras célebres, como o poema “Estatutos do Homem”.

O poeta esteve em Mossoró em março de 2013, quando foi homenageado pela passagem do Dia Nacional da Poesia (dia 14) e ministrou palestra sobre o fazer poético. O evento aconteceu na Estação das Artes Elizeu Ventania, com a presença de grande público.

Aos 95 anos, Amadeu Thiago de Mello nasceu em Barreirinha, Amazonas, em 30 de março de 1926. Além de tradutor e ensaísta, era um dos poetas mais influentes e respeitados do país, reconhecido como um ícone da literatura regional. A luta política, o lirismo, as relações de família e os amores marcam a sua obra.

Preso durante a ditadura militar (1964-1985), exilou-se no Chile, encontrou-se com Pablo Neruda, de quem se tornou amigo e colaborador. Da amizade veio a decisão de traduzirem os poemas um do outro.

Morou na Argentina, no Chile, em Portugal, na França e na Alemanha. Publicou, entre outros livros, “Acerto de Contas”, “Como Sou”, “Melhores Poemas” e “Amazonas – Pátria da Água”.

 

Os Estatutos do Homem

(Ato Institucional Permanente)

A Carlos Heitor Cony

 

Artigo I.

Fica decretado que agora vale a verdade.

que agora vale a vida,

e que de mãos dadas,

trabalharemos todos pela vida verdadeira.

 

Artigo II.

Fica decretado que todos os dias da semana,

inclusive as terças-feiras mais cinzentas,

têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

 

Artigo III.

Fica decretado que, a partir deste instante,

haverá girassóis em todas as janelas,

que os girassóis terão direito

a abrir-se dentro da sombra;

e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,

abertas para o verde onde cresce a esperança.

 

Artigo IV.

Fica decretado que o homem

não precisará nunca mais

duvidar do homem.

Que o homem confiará no homem

como a palmeira confia no vento,

como o vento confia no ar,

como o ar confia no campo azul do céu.

 

Parágrafo Único:

O homem confiará no homem

como um menino confia em outro menino.

 

Artigo V.

Fica decretado que os homens

estão livres do jugo da mentira.

Nunca mais será preciso usar

a couraça do silêncio

nem a armadura de palavras.

O homem se sentará à mesa

com seu olhar limpo

porque a verdade passará a ser servida

antes da sobremesa.

 

Artigo VI.

Fica estabelecida, durante dez séculos,

a prática sonhada pelo profeta Isaías,

e o lobo e o cordeiro pastarão juntos

e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

 

Artigo VII.

Por decreto irrevogável fica estabelecido

o reinado permanente da justiça e da claridade,

e a alegria será uma bandeira generosa

para sempre desfraldada na alma do povo.

 

Artigo VIII.

Fica decretado que a maior dor

sempre foi e será sempre

não poder dar-se amor a quem se ama

e saber que é a água

que dá à planta o milagre da flor.

 

Artigo IX.

Fica permitido que o pão de cada dia

tenha no homem o sinal de seu suor.

Mas que sobretudo tenha sempre

o quente sabor da ternura.

 

Artigo X.

Fica permitido a qualquer pessoa,

a qualquer hora da vida,

o uso do traje branco.

 

Artigo XI.

Fica decretado, por definição,

que o homem é um animal que ama

e que por isso é belo.

muito mais belo que a estrela da manhã.

 

Artigo XII.

Decreta-se que nada será obrigado nem proibido.

tudo será permitido,

inclusive brincar com os rinocerontes

e caminhar pelas tardes

com uma imensa begônia na lapela.

 

Parágrafo único:

Só uma coisa fica proibida:

amar sem amor.

 

Artigo XIII.

Fica decretado que o dinheiro

não poderá nunca mais comprar

o sol das manhãs vindouras.

Expulso do grande baú do medo,

o dinheiro se transformará em uma espada fraternal

para defender o direito de cantar

e a festa do dia que chegou.

 

Artigo Final.

Fica proibido o uso da palavra liberdade.

a qual será suprimida dos dicionários

e do pântano enganoso das bocas.

A partir deste instante

a liberdade será algo vivo e transparente

como um fogo ou um rio,

e a sua morada será sempre

o coração do homem.

 

Fotos: Elilson Batista/Rapadura Cult
http://rapaduracult.blogspot.com/

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