De São José do Campestre, em 2023, a Doutor Severiano, em setembro de 2026, uma sequência de homicídios e atentados envolvendo prefeitos, ex-prefeitos, vereadores e integrantes de administrações municipais chama atenção para a violência contra agentes públicos no Rio Grande do Norte.
O Rio Grande do Norte aparece entre os estados nordestinos com maior taxa histórica de assassinatos políticos. Segundo levantamento do estudo “Democracia Mortal – Violência Política no Brasil”, do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), citado em reportagem do NOVO Notícias, o estado apresentou 8,7 assassinatos políticos por milhão de eleitores entre 2003 e 2023, a segunda maior taxa do Nordeste, atrás apenas de Alagoas. (Novo Notícias)
O dado histórico ganha relevância diante de uma série de episódios registrados no estado nos últimos anos.
2023 — São José do Campestre
Em 18 de abril de 2023, o então prefeito de São José do Campestre, Joseilson Borges da Costa, o Neném Borges, foi assassinado a tiros dentro de sua residência.
Neném Borges, então com 43 anos, havia sido eleito prefeito e estava em seu segundo mandato. A Polícia Civil do Rio Grande do Norte conduziu as investigações.
Em março de 2026, Vando Fernandes Gomes foi condenado pelo Tribunal do Júri a 15 anos de prisão pelo assassinato. Segundo informações divulgadas sobre o julgamento, a acusação relacionou o crime ao apoio do prefeito ao trabalho policial de combate às facções criminosas.
2024 — João Dias
Em 27 de agosto de 2024, o prefeito de João Dias, Francisco Damião de Oliveira, conhecido como Marcelo Oliveira, e seu pai, Sandi Alves de Oliveira, foram assassinados a tiros.
Marcelo era candidato à reeleição e foi morto durante o período eleitoral. A Secretaria de Segurança Pública informou inicialmente que a motivação do crime estava sendo investigada.
Posteriormente, a Polícia Civil do RN afirmou que o duplo homicídio teria sido encomendado por adversários políticos, segundo investigação divulgada em dezembro daquele ano. A versão foi atribuída à Polícia Civil e não deve ser confundida com uma conclusão judicial definitiva.
2025 — São Pedro/Natal
Em 3 de fevereiro de 2025, o ex-prefeito de São Pedro, Miguel Cabral Nasser, foi morto a tiros no Largo do Atheneu, em Natal.
Miguel havia administrado São Pedro por dois mandatos, entre 2017 e 2024. Ele foi atingido durante um ataque que também deixou outras duas pessoas feridas.
O caso, entretanto, exige uma distinção importante: as investigações não estabeleceram simplesmente o crime como violência política. Informações policiais divulgadas posteriormente apontaram uma possível rivalidade entre grupos criminosos como motivação.
Em agosto de 2026, a Justiça decidiu que quatro acusados serão submetidos ao Tribunal do Júri pelo homicídio de Miguel e pelas duas tentativas de homicídio ocorridas no ataque.
2025 — Caraúbas
Em 6 de outubro de 2025, a residência e um empreendimento da vereadora Francisca Leite de Medeiros Alves, conhecida como Titica de Lúcio, em Caraúbas, foram alvo de disparos de arma de fogo.
Ninguém ficou ferido.
As investigações avançaram posteriormente e envolveram dois policiais militares do Ceará e um policial civil, com apreensão de armas e outros elementos durante as diligências. A autoria e a motivação permaneciam sob investigação nas informações divulgadas.
2026 — Mossoró
Em 15 de junho de 2026, o vereador de Mossoró e então pré-candidato a deputado federal Cabo Deyvison foi alvo de um atentado a tiros.
O parlamentar ficou ferido e seu assessor, Alyson Dyego de Oliveira Morais, morreu durante o ataque.
A Secretaria de Segurança Pública informou inicialmente que não havia elementos suficientes para confirmar motivação política. Posteriormente, segundo reportagem do NOVO Notícias, a Polícia Civil passou a apontar uma possível relação do atentado com uma retaliação de facção à atuação do vereador. A motivação, portanto, deve ser apresentada como linha investigativa, e não como fato definitivamente estabelecido.
20 de setembro de 2026 — Doutor Severiano
O episódio mais recente ocorreu em 20 de setembro de 2026, em Doutor Severiano, no Alto Oeste potiguar.
Wilson Flávio Leite Gonçalves, secretário municipal de Agricultura e Obras e irmão da prefeita Maria de Fátima Gonçalves, foi assassinado a tiros durante um ato político.
Segundo informações da Polícia Civil divulgadas pelo UOL, o crime está sendo investigado e o suspeito teria utilizado uma máscara de Homem-Aranha. Até o momento, a motivação política não foi confirmada pelas autoridades.
Uma sequência que merece acompanhamento
Os episódios não possuem necessariamente a mesma motivação ou natureza criminal. Alguns estão relacionados, segundo as investigações divulgadas, a disputas políticas ou à atuação de agentes públicos contra organizações criminosas. Outros permanecem sem motivação esclarecida ou apresentam hipóteses relacionadas à criminalidade comum.
Ainda assim, a sequência chama atenção pela quantidade de prefeitos, ex-prefeitos, vereadores e integrantes de administrações municipais atingidos por homicídios ou atentados em um intervalo relativamente curto.
O levantamento histórico do Cebrap citado pelo NOVO Notícias coloca o Rio Grande do Norte com 8,7 assassinatos políticos por milhão de eleitores no período de 2003 a 2023, a segunda maior taxa entre os estados nordestinos.
Linha do tempo
2023 — São José do Campestre: assassinato do prefeito Neném Borges.
2024 — João Dias: assassinato do prefeito Marcelo Oliveira e de seu pai, Sandi Alves.
2025 — São Pedro/Natal: assassinato do ex-prefeito Miguel Cabral.
2025 — Caraúbas: ataque a tiros contra residência e empreendimento de vereadora.
2026 — Mossoró: atentado contra vereador Cabo Deyvison, com morte de seu assessor.
2026 — Doutor Severiano: assassinato de Wilson Flávio Leite Gonçalves, secretário municipal e irmão da prefeita.
Importante: a inclusão desses episódios nesta linha do tempo significa que são casos envolvendo agentes políticos ou integrantes da administração pública. Isso não significa que todos tenham motivação política comprovada. Em parte dos casos, a motivação continua sendo investigada.
Fontes: Cebrap/estudo “Democracia Mortal – Violência Política no Brasil”; Polícia Civil e órgãos de segurança do Rio Grande do Norte; Folha de S.Paulo; UOL; NOVO Notícias; Tribuna do Norte; Mossoró Hoje e Rádio Difusora de Mossoró.
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